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Um bom filme sempre depende de
um bom roteiro. Por isso a formatação é uma peça importante para o sucesso
de seu trabalho. A maioria dos roteiristas têm boas idéias, mas não sabem
como passá-las para o papel. Como os recursos disponíveis se encontram, em
grande maioria, nos livros sobre o assunto, transcrevemos aqui algumas regras
básicas para se apresentar um roteiro. Regras resumidas, evidentemente, mas que
podem oferecer uma compreensão inicial sobre a arte de escrever para o cinema.

1. O ROTEIRO
Syd Field define o Roteiro como
sendo "uma história contada em imagens, diálogo e descrição, dentro do
contexto de uma estrutura dramática.
Um detalhe que todo roteirista
sempre esquece (eu mesmo me apanho cometendo este erro muitas vezes) é que um
roteiro deve contar uma história como num livro de romance, por exemplo, com a
diferença que no roteiro você deve colocar tudo o que a pessoa pode visualizar
enquanto lê. Metáforas, divagações ou pensamentos do autor quanto a
sentimentos ou situações vividas pelo personagem não podem ser demonstradas,
mas "indicadas" pelo autor para que o ator saiba o que seu personagem
está vivendo ou sentindo. Como diz Doc Comparato, "o romancista escreve,
enquanto o roteirista trama, narra e descreve". O roteirista vai além,
pois precisa demonstrar no papel situações concretas que o leitor do roteiro
possa visualizar. O roteiro é o filme que transcorre no papel antes de ganhar
vida nas telas.
2. ETAPAS
Como toda história possui um
começo, meio e fim, um roteiro também é construído por etapas, um passo a
passo:
a. Idéia ou "o que".
O tema ou fato que motiva o autor a escrever. É sobre esta idéia que o
autor fixará a atenção durante todo o roteiro pois deseja transmitir algo
para o público.
b. Conflito ou "onde": o autor tem uma idéia, mas esta
deve ser transmitida ao público por meio de um conflito. Se não há conflito,
não há interesse por parte do público. O conflito sempre é definido através
do story line. É o universo onde se passará a idéia.
c. Personagens ou "quem":
são aqueles que viverão o conflito idealizado pelo autor. São os
responsáveis por passar ao público o que o autor está tentando expressar em
sua narrativa.
d. Ação dramática ou "como":
quando o autor já tem definidos a idéia, o conflito que transmitirá a
idéia e os personagens que viverão este conflito, chega o momento de definir
de que maneira este será vivido pelos personagens.
A nível prático, estas etapas
podem ser definidas assim:
a. idéia / b. story line / c.
sinopse/ d. estrutura/e. primeiro roteiro e roteiro final
A idéia, como foi visto, é
o sumo do roteiro, a base onde existirá todo o outro contexto (conflito,
personagens e ação dramática). A story line é a forma de
contar o conflito motivado pela idéia de maneira objetiva e suscinta. A maioria
dos autores é unânime em dizer que uma story line não pode ultrapassar cinco
ou seis linhas. Nela deve ser apresentado o conflito, seu desenvolvimento e sua
solução. Ex:
"A
TROCA: Milionária não se conforma com a deficiência visual de seu neto
recém-nascido e paga para uma enfermeira trocar a criança por um menino
perfeito do berçário, mas vinte anos depois o pai do menino sofre de Leucemia
e a esperança de cura está na medula do garoto deficiente e entregue a outra
família que é encontrado, salva a vida do pai e a verdade sobre a troca é
revelada.
"(curta metragem/Romualdo Dropa/1999)
A sinopse, também chamada
de argumento nada mais é do que o desenvolvimento da story line.
Enquanto esta última economiza as palavras ao máximo, a sinopse deve ser
justamente o contrário, uma forma de esgotar literalmente a idéia que se
pretende transmitir. Assim a sinopse, baseada na story line e de posse do
conflito e dos personagens descreve toda a ação dramática de forma a revelar
ao leitor a história que virá a ser contada de maneira audio-visual. Como
exemplo, publico a sinopse de O Ponto de Tangência,
escrito em co-autoria com Homar Paczkowski.
É na sinopse também que se define
o perfil das personagens.
3. FORMATAÇÃO
Os roteiristas norte-americanos
costumam utilizar o papel modelo standard . Entretanto, este tipo de
papel, apesar de ser utilizado aqui no Brasil não é uma regra, sendo que
muitos autores optam pelo modelo padrão A4. Isso fica a critério de cada um,
mas há alguns detalhes que devem ser obedecidos:
1. Para o cinema, a dimensão do
roteiro é calculada através do número de folhas, como bem explica Doc
Comparato:
100 minutos de ação equivalem a
120 folhas standard
15 minutos equivalem a 20 folhas standard
10 minutos equivalem a 15 folhas standard
05 minutos equivalem a 8 folhas standard.
Com relação às margens:
Margem superior: 2,5 cm
Margem esquerda: 3,0 cm
Margem direita: 2,0 cm
Margem inferior: 2.0 cm
Existem algumas ferramentas
que auxiliam nessa formatação e que estão disponíveis, inclusive,
gratuitamente pela Internet.
Outro detalhe importante: a
estrutura do texto dentro do papel obedecendo a descrição das cenas, cortes de
cenas, diálogo das personagens e indicações (estados de ânimo das
personagens).
FADE IN: a expressão
americana denota o surgimento gradual da imagem a partir da tela escura,
geralmente após os créditos iniciais ou durante sua apresentação.
Captação das cenas: é o momentum
em que a cena ocorre, descrita em letras maiúsculas e delimita o tempo e o
local da ação. Ex:
CENA 1. INT./QUARTO DE DORMIR DE
ALICE/RIO DE JANEIRO/NOITE
Onde INT. é a abreviatura
para INTERIOR (EXT.=EXTERIOR), indicando que a cena se passa dentro de algum
lugar;
Cada vez que o autor move a trama
para um novo local é necessário delimitar a nova cena através de uma breve
descrição que nos conta onde e em que tempo estamos.
CENA 2. INT./QUARTO DE DORMIR DE
ALICE/RIO DE JANEIRO/MANHÃ SEGUINTE
Descrição das cenas: é
quando explicamos o que está acontecendo naquele momentum e lugar. Ex:
CENA 1. INT./QUARTO DE DORMIR DE
ALICE/RIO DE JANEIRO/NOITE
ALICE está deitada em sua cama, os
olhos fixos no teto e o quarto em total escuridão. Um raio de luz penetra pela
janela e bate diretamente em seu rosto. Uma lágrima está escapando de seus
olhos enquanto ela permanece inerte.
JOÃO surge das sombras e pára
junto aos pés da cama. ALICE continua impassível.
Geralmente alguns autores
(particularmente tenho este hábito) sempre colocam os nomes das personagens em
maiúsculas, o que configura uma forma de auxiliar o diretor para que ele sempre
possa saber de imediato quem está presente na cena. Outros autores escrevem os
nomes em maiúsculas apenas na primeira aparição da personagem. Entretanto,
estas regras não são rígidas.
Após a descrição da cena,
parte-se para o diálogo das personagens. Ex:
|
JOÃO
(sorrindo) |
Não vai descer? Todo mundo
tá te esperando pra jantar!
|
|
ALICE
(sem olhar para ele)
|
Estou sem fome. Quero ficar
sozinha.
|
As expressões entre parênteses
são chamadas de indicações e não há um consenso quanto ao seu uso.
É utilizada para prevenir o ator sobre o estado de espírito da personagem no
momento da fala. Particularmente acredito que este recurso possa ser bem
explorado, mas não deve se esquecer que o próprio ator que está dando vida ao
personagem pode captar certas situações muito melhor que o autor, que
simplesmente escreve. Assim, não se deve abusar das indicações a fim de
permitir que o ator também dê a sua parcela de contribuição.
Após uma cena sempre advém o Corte
de cena, onde o autor orienta o diretor para uma nova locação ou momento:
CENA 1. INT./QUARTO DE DORMIR DE
ALICE/RIO DE JANEIRO/NOITE
ALICE está deitada em sua cama, os
olhos fixos no teto e o quarto em total escuridão. Um raio de luz penetra pela
janela e bate diretamente em seu rosto. Uma lágrima está escapando de seus
olhos enquanto ela permanece inerte.
JOÃO surge das sombras e pára
junto aos pés da cama. ALICE continua impassível.
|
JOÃO
(sorrindo) |
Não vai descer? Todo mundo
tá te esperando pra jantar!
|
|
ALICE
(sem olhar para ele)
|
Estou sem fome. Quero ficar
sozinha.
|
CORTA PARA:
CENA 2. INT./QUARTO DE DORMIR DE
ALICE/RIO DE JANEIRO/MANHÃ SEGUINTE
Há muito mais o que se dizer a
respeito da formatação de roteiros, mas estes são os princípios básicos que
todo roteirista deve conhecer. Além disso, não se deve esquecer que antes de
formatar o roteiro é preciso saber contar a história de maneira que aquele que
o lê possa visualizar o "filme" diante dos olhos de sua mente.
Glossário
de termos
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