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ALÉM DA LINHA VERMELHA

Paulo Marcelo do Vale Tavares


Quem é Terrence Malick?

A primeira vez que ouvi o nome de Terrence Malick foi numa reportagem sobre seu primeiro filme em 20 anos: ALÉM DA LINHA VERMELHA (THE THIN RED LINE). Até então eu acreditava que Stanley Kubrick fosse o mais recluso dos cineastas, já que ele não filmava há 11 anos.Foi assim que no ano de 1998, todo mundo começou a falar sobre Malick e seu novo projeto. Como não gosto de ser mal informado, fui "conhecer" o tal diretor. Sua formação acadêmica é invejável: ex-professor de filosofia do Massachussets Institute of Technology, é graduado pelas Universidades de Harvard e Oxford, e pelo American Film Institute.

O intrigante, para mim, era como um homem que tinha realizado apenas dois longas-metragens nos anos 70, hoje totalmente ignorados pelo público, poderia causar tamanho rebuliço nos meios de comunicação. Até então, na filmografia de Malick constavam apenas uns dois filmes como roteirista, além dos clássicos TERRA DE NINGUÉM (BADLANDS) e CINZAS NO PARAÍSO (DAYS OF HEAVEN), lançados em 1973 e 1978, respectivamente, na dupla função de diretor e escritor.

TERRA DE NINGUÉM é uma espécie de prequel de ASSASSINOS POR NATUREZA, de Oliver Stone, ao descrever o caso real de dois amantes (Martin Sheen e Sissy Spacek) responsáveis por uma chacina no meio-oeste americano nos anos 50.

Já, CINZAS NO PARAÍSO, é um drama sensível, também ambientado no meio-oeste americano durante a depressão dos anos 30. Estrelado por Richard Gere, Brooke Adams e Sam Shepard, o filme levou o merecido Oscar® de melhor fotografia pelo excelente trabalho de Nestor Alméndros e o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes.

Depois de realizar essas duas produções nem um pouco convencionais, Malick sumiu do mapa e, até onde sei, ninguém tem idéia do que ele fez nestes anos de auto exílio.

Tal atitude o transformou-o num mito, a ponto de mobilizar a mídia em seu retorno. Decidido a adaptar para a telona o romance autobiográfico de James Jones (o mesmo de A UM PASSO DA ETERNIDADE), THE THIN RED LINE, Malick conseguiu levantar da Fox 2000, um dos ramos da Twentieth Century Fox, um orçamento abaixo da média das superproduções, mas ainda assim, de causar respeito: US$ 52 milhões.

Durante a fase de produção, Malick manteve sua fama de recluso e perfeccionista. Visitas da imprensa foram permitidas no set, com a condição de que o cineasta não fosse entrevistado, nem fotografado. Além do mais, as filmagens consumiram 125 dias de trabalho no norte da Austrália e nas Ilhas Salomão. Várias cenas chegaram a ter 20 takes e foram utilizados 46 mil metros de filme.

A versão original atingiu seis horas de duração e nos dez meses de pós-produção, Malick entregou o filme com um pouco menos de três horas.


Não há enredo

O roteiro de ALÉM DA LINHA VERMELHA segue à risca o que eu chamo de um clichê necessário: a história é mais abrangente do que um conto sobre um pelotão numa batalha crucial, uma vez que todos os soldados passarão por um verdadeiro inferno, para descobrirem mais sobre eles mesmos. Assim, a guerra é um "pano de fundo" para um estudo psicológico sobre a índole selvagem do Homem, e toda a destruição que ele traz a si próprio, aos seus semelhantes e à Natureza. Aliás, o choque entre o ser humano e a Natureza é um dos assuntos preferidos de Malick. Na seqüência final de CINZAS NO PARAÍSO, uma chuva de gafanhotos destrói toda a colheita de trigo cultivada ao custo de muito suor e trabalho.

Chamo de um clichê necessário, pois todos os filmes de guerra, na verdade, são sobre outros temas, como coragem (O RESGATE DO SOLDADO RYAN), amizade (O FRANCO-ATIRADOR), loucura (APOCALYPSE NOW e PLATOON) ou inutilidade (GLÓRIA FEITA DE SANGUE).

No filme, a rigor, não há um enredo definido, tampouco um protagonista. Somos apresentados diversos personagens, alguns por poucos minutos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a tropa da Companhia C (de Charlie) tem a missão de reverter o conflito a favor dos Estados Unidos, o que se dará na sangrenta Batalha de Guadalcanal.

Através do soldado Witt (Jim Caviezel) somos introduzidos na história. Ele é um desertor que passou a viver em paz e harmonia com os nativos de uma paradisíaca ilha do Pacífico. Capturado pela Marinha, Witt é advertido pelo veterano sargento Edward Welsh (Sean Penn) e retorna ao dever na unidade que está prestes a encarar a célebre batalha. Em terra firme, a trama se desenvolve: o capitão John Graff (John Cusack), racional e inteligente, afronta o massacre de seu batalhão, porque o tenente-coronel Gordon Tall (Nick Nolte) está lutando por uma medalha de honra. Enquanto isso, o bom capitão James Staros (Elias Koteas) tenta salvar a vida de seus homens. Há também o apaixonado soldado Jack Bell (Ben Chaplin), que em meio a tanto horror, só consegue pensar na sua esposa.



Cada quadro é um espetáculo

Sobre CINZAS NO PARAÍSO, Mick Martin e Marsha Potter, autores do Vídeo Movie Guide, escreveram: "Cada quadro parece com uma página retirada de um raro livro de belas fotografias".
O mesmo pode ser dito sobre ALÉM DA LINHA VERMELHA.

Em O RESGATE DO SOLDADO RYAN, Steven Spielberg e seu fotógrafo favorito, Janusz Kaminski, optaram por uma fotografia envelhecida e "feia" (no bom sentido), como um documentário. Não há dúvidas de que atingiram um realismo nunca visto em celulóide.

Vemos o oposto aqui: tudo é formoso, do céu ao oceano, com destaque para os raios solares passando pelas folhas das árvores, ou para o azul do mar, na cena em que crianças nativas brincam embaixo da água.

Foram adicionadas imagens belíssimas de animais selvagens: um crocodilo na abertura do filme e várias espécies de aves, das mais variadas cores.

Para quem ainda não assistiu, deve ser difícil imaginar como um filme de guerra pode conter tanta beleza. Mas é aí que eu vejo a genialidade de Malick e de seu diretor de fotografia, John Toll.

Os primeiros momentos do filme são idílicos, mostrando o cotidiano dos aborígines em contato com a Natureza. É o Paraíso, que em breve será destruído pelo Homem e suas armas.

As duas seqüências de batalha não possuem a crueza do sucesso de Steven Spielberg, mas são muito bem orquestradas.

A primeira ocupa boa parte do filme, quando os soldados americanos são massacrados na tentativa de atingir o topo de uma colina muito bem defendida pelos japoneses.

Na outra, com cerca de três minutos, o resto daquele pelotão invade um acampamento japonês e num verdadeiro combate "corpo a corpo", conseguem a vitória. É interessante a reação dos soldados japoneses, que se rendem e choram em total desespero, mostrando que numa guerra, todos são humanos, inclusive os "vilões". É difícil ficar indiferente ao oficial japonês gritando com as mãos na cabeça, diante de tanta violência.

 

O elenco estelar

Poucos cineastas podem se dar ao luxo de contar com um elenco de estrelas a preço de banana. Nesta produção, os atores nem queriam saber qual era o personagem que iriam interpretar ou sua importância na trama. Eles simplesmente ansiavam por participar do novo projeto de Terrence Malick, como explicou o produtor George Stevens Jr.: "Eu não me lembro de um filme como esse em que tantos atores talentosos estavam dispostos a aceitar qualquer papel que lhes fosse oferecido, o que representou uma tremenda oportunidade para Terry". E continua: "Eu imagino duas razões para isso. Uma porque eles admiraram o enredo e o roteiro. Outra, porque cada um deles tinha um forte desejo de trabalhar com Terry Malick".

Malick uniu astros já consagrados (Sean Penn, Nick Nolte, George Clooney, John Travolta, Woody Harrelson, John Cusack), "operários" (Elias Koteas, John C. Reilly, Ben Chaplin) e novatos (Jim Caviezel, Adrien Brody, Jared Leto, Dash Mihock).

Lembrando que no filme não há um protagonista, os papéis de vários atores se resumiram a breves, porém marcantes aparições, como por exemplo, John Travolta e George Clooney, que não tem nem dois minutos em cena.

Os papéis de destaque pertenceram, basicamente, a Sean Penn e Jim Caviezel, sendo que o primeiro foi o único ator a receber um cachê de verdade, enquanto que os outros, como Nick Nolte, Elias Koteas, Ben Chaplin e Dash Mihock que também desempenham papéis importantes, receberam cachês simbólicos.

No livro de James Jones havia um personagem principal: o soldado Fife, alter-ego do autor. Interpretado por Adrien Brody, Fife foi relegado a um papel secundário, após uma série de cortes na versão original. Quem saiu lucrando com a nova edição foi Jim Caviezel, que se tornou o centro do filme.

Menos sorte tiveram Billy Bob Thornton, Viggo Mortensen, Bill Pullman, Lucas Haas e Mickey Rourke, que ficaram no chão da sala de montagem. O marido de Angelina Jolie fez toda a narração em off do filme, mas Malick decidiu que os próprios atores fariam os diálogos.

 

Resultados positivos e negativos

A obra de Terrence Malick dividiu a opinião dos críticos, mas fez bonito nos festivais de cinema, tendo abocanhado o Urso de Ouro no Festival de Berlim e sete indicações para o Oscar® em categorias de peso, como melhor filme, diretor, roteiro, fotografia e montagem.

Contudo, enquanto a crítica elogiava sua fotografia e "profundidade", o público achou tudo uma chatice só e o filme amargou um prejuízo nas bilheterias, arrecadando US$ 36 milhões no mercado americano e outros US$ 49 milhões ao redor do mundo, quantia insuficiente para cobrir os gastos com o orçamento. Realmente, é um filme difícil de assistir, pois, além de longo, é introspectivo.

Enfim, resta-nos saber quando a câmera de Malick voltará a funcionar. Embora se especule que o homem tenha alguns projetos em mente, ALÉM DA LINHA VERMELHA pode vir a ser o seu legado. Ou, a retomada de uma carreira brilhante e radical.

Paulo Marcelo do Vale Tavares, 28.02.2002

Email do autor: pmtavar@terra.com.br

 

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